sexta-feira, janeiro 23, 2004

Fragmentos #31

Só para o meu prazer de o ter por aqui escrito !

Cinismos

Eu hei-de lhe falar lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.

Hei-de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha cruz e meu calvário,
E ser menos que um Judas empalhado.

Hei-de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar-lhe a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.

Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei-de olhá-la dum modo tão nervoso,

Que ela há-de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E há-de chorar, chorar enternecida!

E eu hei-de, então, soltar uma risada.

Cesário Verde, Lisboa, 1871
Fragmentos # 30

Porque nem todos os sentimentos e todos os desejos são compatíveis porque nem sempre os desejos podem ser realizáveis , a todos os anjos caídos à espera da redenção....



desenho de Luís Royo

quinta-feira, janeiro 22, 2004

Um dia, quem sabe...

Um dia quando a ternura for a única regra da manhã

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.

José Luís Peixoto " A Criança em Ruínas "
Fragmentos #29



“Ainda que eu fale as línguas dos homens
e dos anjos, se não tiver caridade,
serei como o bronze que soa ou como
o címbalo que retine.

Ainda que eu tenha o Dom de profetizar
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto
de transportar montanhas,
se não tiver caridade, nada serei.

E ainda que eu distribua todos os
meus bens entre os pobres
e ainda que entregue o meu próprio
corpo para ser queimado,
se não tiver caridade,
nada disso me aproveitará.

A caridade é paciente, é benigna,
A caridade não arde em ciúmes,
não se ufana, não se ensoberbece,
não se conduz inconvenientemente,
não procura os seus interesses,
não se exaspera,
não se ressente do mal;
não se alegra com a injustiça,
mas regozija-se com a verdade.
tudo sofre, tudo crê, tudo espera,
tudo suporta.

A caridade jamais acaba.
Mas, havendo profecias, desaparecerão;
havendo línguas, cessarão;
havendo ciência, passará.
Porque em parte conhecemos,
e em parte profetizamos.
Quando, porém, vier o que é perfeito,
o que então é em parte será aniquilado.

Quando eu era menino, falava como um
menino, sentia como um menino.
Quando cheguei a ser homem,
desisti das coisas próprias de menino.
Porque agora vemos como em espelho,
obscuramente, e então veremos face a face;
agora conheço em parte e então,
conhecerei como sou conhecido.

Agora, pois, permanecem a Fé,
a Esperança e a caridade.
Estas três.
Porém, a maior delas, é a caridade.”

Carta de S. Paulo aos Coríntios: 1 Cor 13, 1-13

quarta-feira, janeiro 21, 2004

Fragmentos #28

Daqui parto para casa
Paixões



Enamoramo-nos por eles , cortejamo-los quando os queremos conquistar, tentamos te-los como nossos quando são de todos os que os que como eu se apaixonam e deles extraem o que de melhor e pior cada um tem.
Sempre os senti como muito meus, tenho um enorme cuidado e respeito pelos que comprei, passei a gostar de pessoas porque leram o mesmo que eu que encontraram ideias diferentes nas mesmas palavras, detesto emprestá-los a quem sei que não lhes presta a mesma atenção, o mesmo culto e respeito

Livros
Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando par a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.
Os livros são objectos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.

Caetano Veloso

terça-feira, janeiro 20, 2004

Blue ( III )



Afinal há outras formas de se sentir assim.... passam pela nostalgia de um dia, que surge de repente no presente, mas que em tudo devia estar preso e acorrentado no passado.
A culpa é a luz, o ar, uma palavra, que partilha o mesmo espaço mas não o mesmo tempo ... e nos resgata esse dia do local de onde nunca deveria sair e que transforma assim, de repente, o presente em azul.
Blue ( II )


Ele há dias assim...instalam-se como um vírus e acompanham-nos o dia todo, a razão não subsiste após o olhar atento !


Twenty seconds on the back time
I feel you're on the run
Never lived too long to make right
I see you're doing fine

And when I get that feeling
I can no longer slide
I can no longer run
Ah no no
And when I get that feeling
I can no longer hide
For it's no longer fun
Ah no no

Well, you can say what you want
But it won't change my mind
I'll feel the same
About you
And you can tell me your reasons
But it won't change my feelings
I'll feel the same
About you

What I am is what you want of me
Yeh, now that I'm not there
I took the tables away from you
It's turned that I don't care

And when I get that feeling
I can no longer slide
I can no longer run
Ah no no
And when I get that feeling
I can no longer hide
For it's no longer fun
Ah no no

Well, you can say what you want
But it won't change my mind
I'll feel the same
About you
And you can tell me your reasons
But it won't change my feelings
I'll feel the same
About you

Well, you can say what you want
But that won't change my mind
I'll feel the same
About you
And you can tell me your reasons
But that won't change my feelings
I'll feel the same
About you

I've said goodnight
Try to sleep tight
Ah just dream of me
Go close your eyes
Cause I've closed mine
The sun will shine from time to time
Oh, when you dream of me, yeh

Well, you can say what you want
But it won't change my mind
I'll feel the same
About you
And you can tell me your reasons
But it won't change my feelings
I'll feel the same
About you

Texas - "Say What You Want"
Blue


Há dias assim... Na língua Inglesa há uma cor associada a este sentimento, Blue, e fica bem estar com o coração dessa cor quando se está assim...
Azul do céu profundo dos finais de tarde mesmo quando aparece Vénus no horizonte. Porque nestes dias é isso que se sente, Vénus num horizonte longínquo e tudo a volta deserto de outra cor que não seja azul profundo.