quarta-feira, março 31, 2004

Fragmentos #72

Artista : Turner
“É o meu diário sentimental”… tu dirias!

Enquanto me encantava com as tuas palavras
E percorria um pouco daquilo que tu és!
Comovi-me por partilhar com um amigo aquelas sensações…
Não somente por apreciar a doce melodia de uma efémera conjugação de palavras, que unicamente naquele momento tiveram aquele significado!
Mas especialmente por ver que nada está perdido!
Por sentir que angustia é apenas um indício de uma escolha,
E por esse motivo somos condenados!
E sinto a sequência de ideias paradas num instante,
Pensamentos que me são comuns
Somente porque sinto,
E esse é o maior vício da nossa evidente existência…

Que possamos sempre sentir intensamente
E escolher partilhar…

enviado por How Nice ( uma amiga muito grande )
Fragmentos # 71

Les Graffitis de Moga

Adquire a forma de um corpo quando é o corpo que a contem,
Torna-se peixe, pássaro, flor, pedra , luz e tudo....
Assume todas as formas, está em todo o lado em todo o sítio , basta escutar...
basta sentir, basta deixar sentir ....
Adição
Sôfrega

segunda-feira, março 29, 2004

Fragmentos #70

Leio para ti como homenagem ao que tu és ... e ao que consegues ser quando acreditas em ti .
Escolho o cenário , o topo de uma montanha vestida de verdes das árvores malmequer branco no teu cabelo, e um regato a soar ao longe, "alone em kyoto" e o cheiro a rosmaninho no ar ... o teu sorriso de fim de tarde com o dourado do sol a coroar-te

pergunto se posso dizer o teu nome a uma flor
flor o teu nome sussurrado pétala a pétala
letra a letra numa flor desfolhada na terra

José Luís Peixoto
Fragmentos # 69
Fotógrafo: Trent Parke / Agência : Magnum Photos
Estares ás vezes é tão rico e tão intenso, que por mais que o tempo passe fica sempre a impressão duradoura de ti, não só nos espaço que ocupaste, mas nos que inevitavelmente te associo.

quinta-feira, março 25, 2004

Fragmentos #68

Divido-me, já não é só aqui que escrevo muito do que sinto.

quarta-feira, março 24, 2004

Fragmentos #67

Arte poética
o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrófes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.

José Luis Peixoto in a "Criança em Ruinas"

segunda-feira, março 22, 2004

Fragmentos #66

Poesia é quando tu acrescentas um sorriso de cor ás minhas loucuras.

domingo, março 21, 2004

Celebrando o Dia Mundial da Poesia

Hoje celebra-se por todo o mundo o dia Mundial da Poesia aqui ficam alguns contributos para um desafio lançado que se celebre o poema e o poeta para que estes saibam que transformar palavras em flores e letras em pétalas tem significado para quem os lê.

Contributos
Matei a lua e o luar difuso.
Quero os versos de ferro e de cimento.
E, em vez de rimas, uso
As consonâncias que há no sofrimento.

Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo o coração que se debate aflito.
E luta como sabe e como pode:
Dá beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
Têm maior duração,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emoção

enviado por Túlipa propriétária



(...)
nunca como agora senti esta calma

nunca como agora senti este conforto

nunca como agora senti esta Paz

nunca como agora senti este aconchego

percebo hoje

que passei pelo tempo da mudança...

quando começou não sei

quando acabará espero que nunca

pois basta-me sentir as tuas mãos

pois basta-me olhar nos teus olhos

pois basta-me sentir o teu abraço

pois basta-me pensar em ti...

em ti...

absolutamente calmo

tremendamente respeitador

transcendentemente carinhoso

imensamente amigo...

em ti...

responsável no que fazes

digno no que dizes e sentes

correcto nos comportamentos

altruísta nos projectos.

Em ti...

Só em ti...

(...)"

Sofia Mendes
enviado por Isabel


'pele

quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele.'


david mourão-ferreira
enviado por margarete


Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
E sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
Eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber
Que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
O amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
De nós que não é nossa. O amor é sermos fracos.
O amor é ter medo e querer morrer.

José Luís Peixoto in A Criança em Ruínas colocado por ClanDestino

A Tasca
Poema XXIX

Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de Setembro,
quando a luz é perfeita e mais doirada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.

Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.

Tu és a esperança onde deponho,
meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha onde meus olhos bebem,
fundo, como quem bebe a madrugada.

Eugénio de Andrade

Esta valente litrada foi servida por jamiroo

A Natureza do Mal
O meu poeta favorito pelo Dia da Poesia
Primeiro comi a vela do quatro depois a do oito
depois lembrei-me de quando neste dia as minhas prendas
eram um par de peúgas e umas cuecas pirosas
compradas aos ciganos com o dinheiro tirado ao pão
agora já sei a poesia é isto uma memória de trapos
e um amargo de vela na boca

Carlos Alberto Machado, A Realidade Inclinada, ed. Averno, 2003

posted by Sofia @ 9:15 AM

A Paragem de Autocarro
Carta

Não falei contigo
com medo que os montes e vales que me achas
caíssem a teus pés...
Acredito e entendo
que a estabilidade lógica
de quem não quer explodir
faça bem ao escudo que és...

Saudade é o ar
que vou sugando e aceitando
como fruto de Verão
nos jardins do teu beijo...
Mas sinto que sabes que sentes também
que num dia maior serás trapézio sem rede
a pairar sobre o mundo
e tudo o que vejo...

É que hoje acordei e lembrei-me
que sou mago feiticeiro
Que a minha bola de cristal é feita de papel
Nela te pinto nua
numa chama minha e tua.

Desconfio que ainda não reparaste
que o teu destino foi inventado
por gira-discos estragados
aos quais te vais moldando...
E todo o teu planeamento estratégico
de sincronização do coração
são leis como paredes e tetos
cujos vidros vais pisando...

Anseio o dia em que acordares
por cima de todos os teus números
raízes quadradas de somas subtraídas
sempre com a mesma solução...
Podias deixar de fazer da vida
um ciclo vicioso
harmonioso do teu gesto mimado
e à palma da tua mão...

É que hoje acordei e lembrei-me
que sou mago feiticeiro
e a minha bola de cristal é feita de papel
Nela te pinto nua
Numa chama minha e tua.


Desculpa se te fiz fogo e noite
sem pedir autorização por escrito
ao sindicato dos Deuses...
mas não fui eu que te escolhi.
Desculpa se te usei
como refúgio dos meus sentidos
pedaço de silêncios perdidos
que voltei a encontrar em ti...

Ainda magoas alguém
O tiro passou-me ao lado
Ainda magoas alguém
Se não te deste a ninguém
magoaste alguém
A mim... passou-me ao lado.

Toranja, "Esquissos"


Sofrega

E por vezes

"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

Ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos"

David Mourão Ferreira


# posted by cc : 22.3.04


Doido e Vanus

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro.


little black spot

Aqui despi meu vestido de exílio
E sacudi de meus passos a poeira do desencontro

Acaia | Sophia de Mello Bryner Andresen


O Céu sobre Berlim

Carpe Diem

Confias no incerto amanhã? Entregas
às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma
substitua o riso claro de um corpo
que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,
os instantes; e nos lábios dessa que amaste
morre um fim de frase, deixando a dúvida
definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,
para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,
nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então,
por que esperas para sair ao encontro da vida,
do sopro quente da primavera, das margens
visíveis do humano? "Não", dizes, "nada me obrigará
à renúncia de mim próprio --- nem esse olhar
que me oferece o leito profundo da sua imagem!"
Louco, ignoras que o destino, por vezes,
se confunde com a brevidade do verso.

Nuno Júdice