quinta-feira, novembro 18, 2004

POEMA EM LINHA RECTA
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado.
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confesasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa/Álvaro de Campos

quarta-feira, novembro 10, 2004

Descanso
Finalmente vou afastar-me por uns dias, procurar o sol que irrompe nas nuvens, a outra metade que falta para as coisas fazerem sentido!

quarta-feira, novembro 03, 2004

Acreditar

As nuvens vão passar...talvez não no tempo desejado mas naquele que tiver de ser.

sexta-feira, outubro 29, 2004

O porque deste Blog não acabar hoje!
Este post é um agradecimento á P

Quando pela primeira vez falei com os do Mal disse-lhes "continuem enquanto fizer sentido" e tenho tentado aqui seguir o que lhes pedi nessa altura, ultimamente e por uma série de causas externas à mim, as coisas começaram a deixar de fazer sentido. Ontem a minha intenção era cometer seppuku no blog. Pediram-me para esperar um pouco, acedi pela pessoa.
Mas eu vou esperar porque depois da conversa que tive descobri que precisava de prespectivar, por enquanto continuo...

P... obrigado pelo esforço que fizesse-te, és uma querida.

quinta-feira, outubro 28, 2004

quinta-feira, outubro 21, 2004

Arte Poética

o poema não tem mais que o som do seu sentido,a letra p não é primeira letra da palavra poema,o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura de cegos, lê-se mão de criança ou tu(...)

José Luís Peixoto em "A Criança em Ruínas" Editora Quasi Edições; 2001

quarta-feira, outubro 20, 2004

Hoje...

Hoje é o dia do pingo de chuva no pescoço,é o dia dos encontros certos pelos motívos errados, das lágrimas que não sairam ... e que deveriam ter saido.

segunda-feira, outubro 18, 2004

Aniversário
Por impossíbilidade de o fazer na altura devida, aqui ficam os meus parabéns atrasados á Tasca.
Um abraço a todos.

sexta-feira, outubro 15, 2004

Sentimento Idiossincrático Lusitano (Resumo)


Foi preciso vestir de negro na praia a rogar a N.ª Senhora, para que o barco chegasse a bom porto,
Foi preciso carregar o cesto, pisar a uva, provar o vinho, nos socalcos de xisto,
Foi preciso saber fechar os olhos e ouvir com o coração o destino cantado,
Foi preciso saber aceitar a distância a tristeza, a angustia, lentamente, calmamente,
Foi preciso ver no povo o herói sem nome, o santo sem dia,
Tudo isto foi preciso
Tudo ferramentas na construção do nosso sentimento genético.

quinta-feira, outubro 14, 2004

Sentimento Idiossincrático Lusitano ( quarta parte )

Dito no plural, são carinhos de memória, abraços que se enviam.